20 Fevereiro 2012

MeuPontoEmissor *Fevereiro 2012*



Life Is Full of Possibilities



O Álbum Bronco




The Singles Collection 2001-2011



The Path Of Totality




U&I




TH1RT3EN




Stade 2




Osso Vaidoso
Animal




TKOL RMX 1234567




Made In Germany




A Montanha Mágica




Gish (R 1991)



L.A.Woman 40th Anniversary (R 1971)




Some Girls (R 1978)




Quadrophenia (R 1973)




The Something Rain

22 Dezembro 2011

MeuPontoEmissor *Dezembro 2011*


Drunken Sailors & Happy Pirates



Crazy Clown Time



Died in the Wool: Manafon Variations



A Dramatic Turn of Events



A Árvore Kriminal



New Brigade



Com todo o Respeito



National Treasures



Heritage



Songs of Love and Loss




An Appointment with Mr. Yeats

07 Dezembro 2011

O português é uma língua feia?


Imagino que, só de ver o título, alguns leitores tenham ficado com pele de galinha e estejam já à procura dos insultos com que tencionam entupir-me a caixa de email. Dir-me-ão que Gil Vicente e Bocage, Camões e Pessoa (que considerava a língua, mais do que o país, a sua pátria), Vinicius de Moraes e Jorge Amado, para só mencionar alguns dos maiores, elevaram o português aos píncaros da beleza pura. Ninguém pode pôr isso em causa, de onde se conclui que a língua portuguesa não é feia. Mas às vezes parece.
Basta pegar em meia dúzia de estrofes dos Beatles para perceber isso. Em inglês soam bem, ou até mesmo perfeitos, mas vertidas para português tornam-se toscas, infantis e quase grotescamente vulgares.
Suponho que falta à língua portuguesa uma certa sofisticação, um toque de artificialidade e elegância que outros idiomas possuem em alto grau. Qualquer banalidade dita com um perfeito sotaque inglês merece aprovação, qualquer brejeirice em calão italiano é música para os ouvidos, qualquer disparate dito em francês parece grande literatura. Mas em português não há volta a dar: independentemente da forma como for dito, nunca passará de uma banalidade, de uma brejeirice ou de um disparate.
O universo da música constitui um manancial inesgotável para quem quer demonstrar que a língua portuguesa chega a ser cruel. Os exemplos dariam para encher um livro: quem pagaria de livre vontade para assistir a um concerto de "Paulo Simão" (Paul Simon), "Damião Arroz" (Damian Rice) ou "Tiago Brusco" (James Blunt)? Podemos até imaginar os cartazes com grandes parangonas a anunciar o espectáculo. Mas a verdade é que, com esses nomes, na melhor das hipóteses os artistas conseguiriam contractos para cantar num casamento ou numa festa de aldeia. Por muito boas que fossem as musicas, o sucesso mundial estar-lhes-ia vedado à partida.
Para o jornalista, também o aportuguesamento das palavras é motivo de constantes discussões, dilemas e angústias. A palavra croissant, que nos faz lembrar um apetitoso folhado em forma de crescente, escrito na versão portuguesa ('cruassã') mais parece um som emitido por um sapo. Cowboy pode ser traduzido por vaqueiro (que já de si parece um insulto), mas também por "caubói" uma palavra que ultrapassa todos os limites do bom gosto. E até o requintado scotch whisky, ao ser transformado no aportuguesado "uísque" torna-se uma bebida de taberna que só traz à ideia uma garrafa de Vat69. Já com abat-jour passa-se algo um bocadinho diferente. Existe uma belíssima versão em português, "quebra-luz", que por alguma razão caiu em desuso. Em vez disso, escreve-se abajur, que faz lembrar um fruto tropical de origem brasileira.
E por falar no Brasil: além de todos os escritores já mencionados e da maravilhosa literatura que produziu, o português tem algo de que se pode orgulhar - a paternidade da variante brasileira. Respondamos, pois, à infame pergunta do título. A língua portuguesa é feia? Nada disso, ainda que às vezes disfarce muito bem.


José Cabrita Saraiva