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An Appointment with Mr. Yeats
14 Dezembro 2011
07 Dezembro 2011
O português é uma língua feia?
Imagino que, só de ver
o título, alguns leitores tenham ficado com pele de galinha e estejam já à
procura dos insultos com que tencionam entupir-me a caixa de email.
Dir-me-ão que Gil Vicente e Bocage, Camões e Pessoa (que considerava a língua,
mais do que o país, a sua pátria), Vinicius de Moraes e Jorge Amado, para só
mencionar alguns dos maiores, elevaram o português aos píncaros da beleza pura.
Ninguém pode pôr isso em causa, de onde se conclui que a língua portuguesa não
é feia. Mas às vezes parece.
Basta pegar em meia
dúzia de estrofes dos Beatles para perceber isso. Em inglês soam bem, ou até
mesmo perfeitos, mas vertidas para português tornam-se toscas, infantis e quase
grotescamente vulgares.
Suponho que falta à língua portuguesa uma certa sofisticação, um toque de
artificialidade e elegância que outros idiomas possuem em alto grau. Qualquer
banalidade dita com um perfeito sotaque inglês merece aprovação, qualquer
brejeirice em calão italiano é música para os ouvidos, qualquer disparate dito
em francês parece grande literatura. Mas em português não há volta a dar: independentemente
da forma como for dito, nunca passará de uma banalidade, de uma brejeirice ou
de um disparate.
O universo da música
constitui um manancial inesgotável para quem quer demonstrar que a língua
portuguesa chega a ser cruel. Os exemplos dariam para encher um livro: quem
pagaria de livre vontade para assistir a um concerto de "Paulo
Simão" (Paul Simon), "Damião Arroz" (Damian Rice)
ou "Tiago Brusco" (James Blunt)? Podemos até
imaginar os cartazes com grandes parangonas a anunciar o espectáculo. Mas a
verdade é que, com esses nomes, na melhor das hipóteses os artistas
conseguiriam contractos para cantar num casamento ou numa festa de aldeia.
Por muito boas que fossem as musicas, o sucesso mundial estar-lhes-ia vedado à
partida.
Para o jornalista,
também o aportuguesamento das palavras é motivo de constantes discussões,
dilemas e angústias. A palavra croissant, que nos faz
lembrar um apetitoso folhado em forma de crescente, escrito na versão
portuguesa ('cruassã') mais parece um som emitido por
um sapo. Cowboy pode ser traduzido por vaqueiro
(que já de si parece um insulto), mas também por "caubói"
uma palavra que ultrapassa todos os limites do bom gosto. E
até o requintado scotch whisky, ao ser transformado no
aportuguesado "uísque" torna-se uma bebida
de taberna que só traz à ideia uma garrafa de Vat69. Já com abat-jour
passa-se algo um bocadinho diferente. Existe uma belíssima versão em português,
"quebra-luz", que por alguma razão caiu em
desuso. Em vez disso, escreve-se abajur, que faz lembrar um
fruto tropical de origem brasileira.
E por falar no Brasil:
além de todos os escritores já mencionados e da maravilhosa literatura que
produziu, o português tem algo de que se pode orgulhar - a paternidade da
variante brasileira. Respondamos, pois, à infame pergunta do título. A
língua portuguesa é feia? Nada disso, ainda que às vezes disfarce muito bem.
José Cabrita Saraiva
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